Xadrez online e xadrez presencial são animais parecidos, mas com algumas diferenças. Ontem, por exemplo, depois do enésimo mouse slip em que perco a dama, minha esposa se assustou com meu repentino acesso de fúria que quase culminou com o mouse voando pela janela, afinal a culpa é minha e eu coloco no que eu quiser. No presencial não podemos colocar a culpa no mouse ou xingar (pelo menos não em voz alta), mas é possível olhar nos olhos do adversário ou adversária e deduzir forças, fraquezas ou simplesmente contemplar seus trejeitos.
Da minha reiterada observação em 40 anos de torneios, eis uma pequena caricaturização dos diferentes tipos de enxadrista:
O confiante: joga todos os lances como se fosse Napoleão conduzindo seu exército. Normalmente não faz a menor ideia do que está acontecendo no tabuleiro.
O inseguro: joga todos os lances como se estivesse pedindo desculpas e faz contato visual como se procurasse aprovação. Se você fizer cara de bravo, a vitória é garantida.
O irrequieto: parece que está sentado em um formigueiro ou que está disputando uma maratona sentado na cadeira. Muitas vezes pega uma peça que fica girando entre os dedos, mostrando uma irritante habilidade que é difícil de cornetar, pois é replicada até por grandes enxadristas (Boris Gelfand, por exemplo).
O sádico: quando percebe que vai ganhar, executa os lances com um prazer adicional, saboreando o sofrimento da vítima, não raro atarraxando as peças como se estivesse esmagando um mosquito. São pessoas a se evitar em nosso convívio social.
O masoquista: procura sempre posições com pouco espaço para as peças e parece desfrutar de cada momento em que sua posição piora. Normalmente joga a Defesa Francesa.
O conversador: antes da partida fala sobre tudo, pergunta da sua vida, diz que segue seu canal no Youtube, pede pra tirar uma foto, diz que é uma honra. Perder para esse enxadrista é mil vezes mais doído que perder uma partida normal, pois fico imaginando a felicidade extasiante que ele vai sentir por dias, meses ou até anos.
O monossilábico: quando termina a partida, ganhando ou perdendo, se retira rapidamente. O encontro entre o conversador e o de poucas palavras costuma ser interessante.
O encarador: fica o tempo todo olhando nos seus olhos durante a partida. Dá vontade de mandar um beijinho para ele (de forma irônica, é bom frisar), mas as consequências podem ser ruins tanto no caso dele gostar quanto no caso dele não gostar.
Sejamos sinceros: jogar xadrez presencialmente tem um charme muito maior do que o xadrez online.
Lembrou de algum tipo de enxadrista que não está listado aqui (e são muitos)? Responda esse e-mail com a descrição do seu personagem.
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