O tema do "agente duplo" ou "infiltrado" mexe com a imaginação humana. Cães de Aluguel, Os Infiltrados, O Espião Que Sabia Demais, Mata Hari. O xadrez é um mundo à parte e tem suas próprias histórias de espionagem, reais, inventadas ou fruto de paranoia. Em 1986, Kasparov, furioso depois de perder algumas partidas no match contra o Karpov, demitiu um dos seus analistas, Evgeny Vladimirov. O motivo: ele era um infiltrado e estaria passando as análises para o adversário. A acusação nunca foi provada, mas as "análises secretas do Kasparov" até foram vendidas no "mercado paralelo" por um preço que faria até um notório sovina como o Karpov colocar a mão no bolso. Não que ele precisasse: se realmente ele tinha um informante na equipe do Kasparov, não era ele que estava pagando. Mequinho sempre se certificava que as cortinas estavam bem fechadas antes de começar suas análises durante os torneios. O genial, humilde e simpático Ulf Andersson, que foi analista do Mequinho, nos contou que o brasileiro levava sua preocupação ao extremo: certa vez ele adiou uma partida e simplesmente não contou para o Ulf qual o lance que havia selado (a jogada era escrita na planilha e depositada em um envelope que era aberto na hora do recomeço da partida. Saber qual o momento certo de adiar o jogo era uma arte por si só, mas o ideal era uma posição com algumas opções para que seu adversário ficasse em dúvida sobre qual o lance escolhido). A nobre arte da espionagem parece que está em baixa no xadrez moderno. Peter Nielsen, por muitos anos o treinador do Anand, foi contratado às claras pelo Carlsen. Não houve reclamação, rompimento, malandragem. Daniil Dubov, russo e amigo do Nepomniachtchi, trabalhou para o Carlsen no match. Pouco tempo depois, Dubov e Nepo protagonizaram um empate combinado com o que ficou conhecido como a "dança dos cavalos", mostrando que a amizade estava inabalada. Alguns dirão que hoje em dia não é preciso de espionagem, já que o computador mostra os melhores lances. Apenas os céticos e ingênuos acreditam nisso. Os meros mortais não deixam o computador analisando o dia inteiro e ainda é imprescindível que alguém de carne e osso (e talvez com coração) encontre ideias que não são as preferidas da máquina, mas que têm valor prático. Sejamos realistas: você não gostaria de dar uma espiadinha no arquivo do Chessbase que o Gukesh está montando para o match contra o Ding Liren? Imaginar não é pecado.
Se você quer ficar bem preparado e gostaria de fazer isso sem precisar de um espião, minha sugestão é preparar um repertório com as análises do GM Quintiliano, o maior especialista de aberturas do Brasil (opinião 100% parcial): [ O Repertório do Quintiliano na Najdorf] [O Repertório do Quintiliano contra Anti-Sicilianas] Bons estudos, Rafael |
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