As "engines" ou "motores" são os aplicativos que analisam as partidas de xadrez e fazem a alegria de uns e tristeza de outros. Tudo hoje em dia pode ser checado nos mínimos detalhes e erros dos melhores enxadristas do mundo são imediatamente mostrados na tela de um celular meia boca. Para alguns, as engines tornam o xadrez "explicável" para as massas e são indispensáveis para a popularização. Para outros, elas tiraram o charme do xadrez, aquele negócio de batalha de ideias, de pensar com a própria cabeça. Em tempos de 8 ou 80, sempre vale lembrar, uma vez em mais, que "In medio stat virtus". Nem vilã, nem mocinha.
Camila L., mesmo sem ter conhecimento para avaliar posições de xadrez, foi literalmente às lágrimas quando a engine mostrou a virada em uma partida que eu tinha desvantagem de 16 pontos contra o GM Inarkiev, em 2013. Onze anos mais tarde, Davi L. veio feliz e faceiro me mostrar uma partida em que jogou com "90% de precisão". Como todo pai, omito as verdades que serão aprendidas com os anos, em seu devido momento (se o adversário leva mate em sete lances, sua precisão será alta).
Nada disso era possível quando eu comecei a jogar, em 1986. Tive a sorte de ter acesso a uma vasta biblioteca enxadrística, incluindo Informadores, o livro de partidas do Fischer, do Smyslov e tantos outros. Meu pai também assinava as revistas New In Chess e British Chess Magazine, que eu recebia quase com a mesma alegria que novas fitas de videogame, se é que você sabe o que é isso.
Desenhar as árvores de análises do "Pense Como Um Grande Mestre", do Kotov, tinham um charme especial. Quantas vezes sonhei com essas árvores tão ramificadas em minhas próprias partidas, deixando meu adversário perdido no meio de tantas complicações.
Sou chato, ranzinza e saudosista confesso, mas não nesse caso. As engines cumprem seu papel de democratização do xadrez. Antes havia uma grande vantagem para quem morava em cidades com cultura enxadrística, onde era possível jogar torneios, conversar com outros enxadristas, ter aulas. Mostrar uma partida para alguém que dissesse se você jogou bem ou mal. Hoje em dia a engine pode cumprir esse papel, mas é preciso saber a hora certa de perguntar.
Pensar sobre uma posição com calma, com sua própria cabeça, fazer suas análises, em um caderno, se preferir, mas com a tranquilidade que depois disso você poderá checar com o computador se o que pensou tinha lógica e ver um novo mundo de possibilidades para continuar as análises. Isso é uma maravilha do xadrez moderno. Infelizmente, aproveitada por poucos.
Quer treinar xadrez do jeito certo? Seja assinante do Acesso Total.
No hay comentarios:
Publicar un comentario