Xadrez e literatura são dois tópicos igualmente importantes na minha vida, pois os dois têm a capacidade mágica de me transportar para um outro mundo, com suas próprias regras, alegrias e tristezas, todas elas diferentes do mundo real.
Quando jogo xadrez, os fracassos e sucessos da realidade são esquecidos enquanto temporariamente sou levado a uma quarta dimensão, na qual o que importa é saber o que jogar contra a Najdorf e o maior perigo é não ter um plano. Um livro, assim como um tabuleiro de xadrez, é uma fortaleza, uma proteção, uma garantia de que se tudo der errado, você ainda terá seu refúgio.
Uma outra analogia pode ser feita entre o xadrez e os livros, essa com uma certa utilidade prática. Os dois permitem que você faça releituras em diversos momentos da sua vida, redescobrindo não apenas o que você está lendo, mas tendo um encontro com uma outra versão de si próprio.
Ler "Memórias Póstumas de Brás Cubas" com 30 anos é uma experiência bem diferente do encontro forçado que temos com essa obra-prima durante o colégio. O livro parece ser outro, apesar de ser o mesmo. Quem mudou, na verdade, foi o leitor.
Algo semelhante acontece quando analisamos novamente uma partida que jogamos há muitos anos. Ela parece ser totalmente diferente, apesar de os lances serem os mesmos de sempre.
Recentemente, inspirado por minha leitura da coleção do Karl Ove Knausgaard, decidi rever algumas partidas de torneios marcantes da minha carreira. Comecei com o Aberto de Nova Iorque, jogado em 2000 (a última edição desse prestigioso torneio). Que maravilha foram as minhas partidas jogando 1.e4. Minha vitória contra o Khenkin, na Caro-Kann, é uma das melhores partidas da minha carreira. Também joguei uma bonita partida de ataque, essa contra o polonês Kamil Miton, que tinha sido campeão mundial de categoria (acho). Olhando essas partidas, juro que fiquei com a impressão de que nem eram realmente minhas, tanto pela distância temporal que já tornam as lembranças obscuras, tanto pela qualidade de alguns lances.
Infelizmente, quando analisei minha derrota para o Smirin, na penúltima rodada, quando eu liderava com meio ponto de vantagem, lembrei que eu mesmo estava jogando. E minha indignação, depois de tantos anos, se materializa em um pensamento: por que diabos fui jogar 1.d4 nessa partida?
Não tem jeito, a realidade sempre acaba nos puxando da quarta dimensão. Pelo menos agora, como um protesto e uma vingança contra aquele Rafael de 10 de maio de 2000, estou lançando um curso com um repertório para as brancas jogando PEÃO REI.
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