Ontem vi uma partida extraordinária que me fez refletir sobre a passagem do tempo no xadrez e na vida. Alguém já disse que o xadrez é a vida em miniatura, então é natural que sensações parecidas ocorram também no tabuleiro da vida. Minha reflexão é sobre a capacidade humana de fazer afirmações peremptórias e se surpreender com as mudanças do destino e a passagem do tempo. No final da Copa de 2002, por exemplo, a sensação era que o Brasil, finalista das três últimas edições, ganharia mais torneios nos anos seguintes, com Ronaldinho, Kaká e Juninho Pernambucano no auge (dentre outros). Deu no que deu. Mas também já vi o Brasil ser considerado uma seleção fracassada depois da Copa de 90 e apanhar de 3x0 da Espanha em um amistoso. O Brasil já era. Deu no que deu nas três Copas seguintes. Em 2000, ninguém poderia imaginar que o Kramnik venceria um match do Kasparov. O placar entre eles era equilibrado, isso é verdade, mas Kramnik havia perdido o match contra o Shirov e se tornou desafiante mesmo depois dessa derrota, em uma das grandes injustiças da história do xadrez. Com esse match começou a ascensão da Defesa Berlinesa, que também ninguém poderia imaginar que se tornaria o que é hoje, para muitos a melhor opção contra o peão rei. Naquela época era uma defesa de segunda linha, apesar de muito praticada pelo fortíssimo GM húngaro Almasi, que foi quem realmente colocou a Berlinesa no radar depois de décadas de obscuridade. Para quem está curioso (ninguém), enfrentei o Almasi e sua Berlinesa em 2001. O tempo foi passando. Hoje o Kramnik é considerado Campeão Mundial, apesar de ter jogado um match para o qual não se classificou. A Berlinesa, antes de segunda linha, virou a arma predileta dos super grandes mestres. Em uma conexão rocambolesca chegamos a Hans Niemann, o personagem kafkiano que eternamente será perseguido por suspeitas de trapaça. O próprio Kramnik já foi acusado e recentemente tomou gosto pelo outro lado, o de acusador. Os dois adoram a Berlinesa. E eis que surge o verdadeiro heroi dessa confusa história, o GM ucraniano Andrei Volokitin, que eu admiro há mais de 20 anos, quando ainda era um prodígio. Franzino, de baixa estatura e de aspecto dócil, seus olhos brilham ferozmente todas as vezes que suas peças executam um ataque. Fica a sugestão: veja as melhores partidas do Volokitin. Ontem ele derrotou Hans e a Berlinesa de forma categórica, uma linda partida que analisei para o Chess.com [veja aqui] e que em mim causou o mesmo efeito que molhar a madeleine na xícara causou a Proust. O que será de Hans, de Kramnik, de Volokitin e da Defesa Berlinesa? O tempo dirá, mas já aprendi que ele sempre me surpreende.
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